sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cielo

Mirra, a lua repete toda noite a mesma luz e o mesmo céu, nasce contanto as horas para minguar, mas quando olha você ainda se deslumbra. Tudo muda. Naturalmente ou por birra. Imagina. A lua infla de segundas intenções, esfria, faz sereno. E você precisa ao menos tentar esquecer, ou nunca verá a luz do dia. Contagia. Para além de intenções de terceira, quarta, quinta cerveja. Quem é que tem cara para tudo isso? Que tanta gente é essa que vai e vem pelo mesmo céu com o trem de pouso aberto?
Se agasalha sob o infinito do caribe. Se camufla de todas as cores pintadas de aquarela. Mas não se esconde a saudade. Não se mata a vontade da carne. Por isso o tempo passa. Por isso ela fica. Por isso volver. A escrever poemas em prosa. Versos em zero e um. E se tudo acaba assim. Melhor não ter mesmo fim.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Cuba

Durante a vida tomei alguns choques, bati a cabeça diversas vezes, alguns tetos pretos devo confessar. E nunca voltou ao lugar. Hoje prestes a sair de viajem. Me bate um receio. Uma andar falso. Um medo... Da solidão.
Quando mais novo meu mundo era menor. Do tamanho de um bairro. E apesar disso eu ainda tirava questionamentos profundos desse micro para um bom menino. Será que sou Nazista? E aos 14 já tinha respostas na ponta da língua. Do que você mais tem medo? Solidão.
Que diabos de criança responde isso com tanto bicho papão assaltando por aí? Que merda de adulto essa criança vai ser? E sabe qual é o melhor de Cuba? No necesita de respuestas

domingo, 29 de janeiro de 2012

Freezer

Dois pedaços de carne conversam na cama. Isso mesmo. Uma nojeira. Mas a cama já estava suja mesmo. Sangue, porra. É tudo fluído corporal, tão quão o suor. E esses dois pedaços de mau caminho já nem sangram mais, o lençol branco já apresenta manchas encardidas amarronzadas. Há muito que foi feito o corte. Há muito o sexo não é mais o mesmo. Já não sangram como antes, já fazem tudo em forma de reprodução automática. Cresce inconformado, morre fatiado. Assim como o poeta diria. "Nasce pra ser feliz e morre triste. Oh que vida!" Estagnados, desprotegidos num motel de quinta. Carne de segunda.

- Já percebeu que nos colocam sempre no mesmo quarto?
- É claro que colocam no mesmo quarto. Eu sempre peço pra colocarem no mesmo quarto!
- Você que pediu?
- Nunca percebeu isso? Só hoje viu que é o mesmo quarto?
- Por causa do quadro. Ele me pareceu tão familiar.
- Pro inferno o quadro. Eu gastando meu romantismo com você.
Ela não se abalou.
- É bom continuar gastando se quiser que eu continue dando.
Ele ignorou.
- ...  Foi por causa desse quadro que quis voltar pela primeira vez.
- Por causa dele?
- Ele não parece dois rostos, um de frente para o outro?
- Parece...
- E eles apenas se olham, mas se desejam tanto que dá pra sentir o tesão daqui.
- Eles nem tem olhos.
- Eu sei que essa merda é um motel e tá tudo condicionado. Mas eles se amam. Tenho certeza.
- Eu pensei que eles só queriam se comer.
- E querem. Não perceberam ainda o que está acontecendo. Mas estão apaixonados.
Ele faz uma pausa dramática.
- E foi assim que eu percebi. Olhando para esse quadro naquela noite.
- Você ficou olhando para um quadro na primeira vez que veio a um motel comigo? Tava divertido assim?
- Foi um momento mágico. Não começa não. Nós entramos aqui já tirando a roupa, pulando na cama. E enquanto você me chupava eu olhei o quadro.
- Enquanto eu te chupava?!
- Não o tempo inteiro.
- Hã?
- Foi uma olhada bem rápido.
- Sei.
- E já quase amanhecendo. Eu fumava um cigarro enquanto você dormia e notei o quadro novamente. E vi ele totalmente diferente. Dessa vez o cara tava com cara de estar totalmente apaixonado pela mulher. Entende? E eu sabia que estava porque reconheci o olhar dele. Era igual ao meu olhar no espelho do teto. Eu era ele. Ele era eu. Ou seja. Eu estava apaixonado por você. Entende?
- Ah!!! Nunca para de gastar seu romantismo, não?
- Nunca.

E logo que voltaram a se apertar e rolar pela cama o lençol voltou a ficar viscoso. A cena é suculenta. Eles se lambem. Por cima, de quadro, de lado. Algumas pequenas improvisações são permitidas. Ele esperando a hora em que pode terminar. Ela segurando o melhor desejo que pode imaginar. Que arte. Que mão de obra para se sentir algo.
E seguindo o roteiro, alguém goza e tudo acaba. Uma loteria.
Se desgrudam, se põem a secar. E acabou o tempo das pequenas improvisações.

- Não acredito que você nunca reconheceu o quarto!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A cabeça e as outras partes do corpo

Ninguém acreditou em mim quando eu disse que seria assim. Apontam uma arma bem no meio de sua tempora esquerda, porque ali até uma coronhada te apagaria. É preciso certeza. E com toda não daria tempo para ver o que viria depois, mas os miolos espalhados pelo chão seriam partes de você. Seu corpo. Que por puro instinto a primeira dama cata e os animais comem. Com desespero de uma carne de terceira. Se parassem de desejar o que não tem não comeriam. Não morreriam. Mas eles parecem não se emocionar. São os miolos de um ser humano, pelo amor de deus. Ninguém deveria morrer por apenas um gatilho. E se o dedo se arrepender? Ninguém se mantêm tão pleno o tempo todo. Ninguém tem vontade de viver por todo tempo. E clack.
Ninguém acreditou em mim quando disse que não precisava de ensaio. Tem quem reze sem religião. Tem quem vive sem paixão. Isso é tão natural. E não é nada original ter dor nos calcanhares, dor nas costas e enxaquecas vivendo na cidade. Isso tudo passa. Isso todo mundo passa. Só não se perde o medo. Mesmo morto. Ainda lhe restará o medo. Não mais de armas e gatilhos. Nada mais de mudanças precipitadas. Não mais de negros e pobres. Não mais a culpa que o dinheiro nos deu. Não mais atrasos e obrigações. Apenas o medo do "em vão".  

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Pôr do sol

A gente sempre acha que é hora de mudar. Mas quando revê as coisas que vão ficar pra trás muda de ideia. Para de dizer que não tem nada, achando que tem tudo a perder. E assim criamos raízes pelos lugares que nos levam a rotina. Raízes feito árvore em mangue. Prestes a cair.
Dias que não piso fora de casa. O relógio da cozinha roda em contagem regressiva. Sinto que quero respirar todo o ar que há aqui dentro antes de ir. Esse ar viciado de mim. Já sei que está chegando a hora, já me sinto enjoado. E prestes a vomitar choro.
É hora de mudar.
Ou talvez sejam coisas demais na cabeça que preciso botar pra fora antes de me deitar sem rolar de uma vastidão da cama para outra. Solidão. Talvez seja o peso de todos os pensamentos encardidos que não me deixa sair do lugar.
Passei o dia em casa misturando sono com anestésicos, pensando, pensando... Preso a ideia original de que não há para onde ir eu me choco com tanta beleza desperdiçada. Como tirar inspiração de tamanha desgraça? Dia cinza. Vida sem graça. Sabe? Só não cai chuva porque amanhã novamente tudo se suja. E imaginar que hoje é apenas segunda. Uma pena inteira para cumprir ainda. E mesmo que seja crime querer. Quis que a vida fosse tudo que queria. Se é que se pode ser feliz assim, só querer.
Eu não queria escrever, por incomum que pareça queria conversar com alguém. Mas a essa hora da vida sou muito solitário. Então. Escrevo. Eu sei, eu sei, ainda é cedo. Nessa idade tudo deveria ser apenas o começo, mas não sei se vou não. Se desse para se sentir parte eu acho que já teria sentido. Se desse pra explicar a vida eu acho que já teria entendido.
Melhor agora é deitar. Amanhã to fora daqui.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Coração

Isso não pode estar certo. Devo estar adormecido ainda ou tendo um feedback qualquer. Mulher alguma teria tanta audácia. Cara de pau. PE-TU-LÂN-CI-A. Isso não é algo que se deixa pra trás. Isso não é algo que se esquece.
E bem no meio da sala?
Passa a noite, vai embora escondida e deixa o coração no meio da sala?
O que isso quer dizer?!
É aterrorizante ver como ainda pulsa. Lentamente como se estivesse dormindo. Transbordando perfume. O perfume dela. Aterrorizante como uma bomba.
O que eu faço com isso agora? Pego pra mim? E tem que cuidar? Limpar? Ele se alimenta de que? Pode deixar sozinho no apartamento ou tem que levar pra onde for?
Não vou poder sair de casa até ela voltar?!
Ela não pode ter ido muito longe. Logo deve voltar. Isso não é algo que se abandona. Isso não é algo que se dá. Ela vai voltar. Tem que voltar. Isso aqui não está certo. Não pode estar certo. É fácil sair sem se explicar. Se doar sem se vender. Isso tudo é injusto comigo. Não pedi nada, não dei nada. O que devo fazer?
Primeiro acender um cigarro que quase não sinto mais o cheiro nessa casa. Ligar o laptop e pesquisar no google. A sabedoria digitalizada me deixará a par de todos os cuidados que devo ter. Uma infinita lista de cuidados. Colesterol, manteiga omega 3, yoga... Essas coisas vivem dando problema e durando pouco.  Imagina ela voltar e encontrar uma artéria entupida? Haja ouvido.
Ela vai voltar. Trazendo o café da manhã pra gente. Ou coisa assim. Tentará adivinhar o que bebo quando acordo porque não sabe o que eu bebo quando acordo. Me preocupo se lembrará quantos lances são de escada e qual é a chave da tranca. Ela surgiu do nada. Com uma beleza de me tremer as pernas e um jeitinho encantador. Fui praticamente uma vítima.
E se não voltar sou capaz de me vingar. Quebrar sua janela com meu coração de pedra. Uma troca justa. Terá que carregar consigo o peso do meu coração. Por onde for. Assim logo se arrepende e vem me gritar para que lhe devolva o coração que roubei. Cachorro, canalha, egoísta, desperdício de tempo. É um caminho sem volta.
Logo tudo vai começar e meu estômago já embrulhou demais para um café da manhã. Melhor tomar um vinho para abrir o apetite. Faz bem também para o... você sabe. Só sobrou uma meio taça de ontem fora da geladeira. Azedo do jeito que eu gosto. Dou goladas como remédio. Pois essa garota é um veneno e esse coração uma armadilha. Devia me livrar logo disso pela janela, sufocando com a almofada.
Mas ficamos aqui apenas nos encarando. Nunca tinha visto um coração assim tão de perto, tão nu. Tão vermelho que parece um pouco amarronzado, tão tranquilo que parece em perfeito estado. Sinto vontade de morde-lo de raiva. Arrancar um pedaço de sua carne. E ouvi-lo gemer de prazer. Vontade de ver a cor da sangue que há dentro. Pois se for vermelho como o meu somos os dois passivos de dor. De sangrar.
Pego o coração dela em minhas mãos. Sua pele é macia. Sinto seu cheiro forte entrando pelas minhas narinas. Sendo tragado. Sinto seu cheiro impregnando em mim. Sou seu território. Eu e minha sala. Já começou. Não há mais volta. Encaixo ele na boca escancarada e começo a morder lentamente. Esperando sentir o romper da pele e o sangue jorrando. Decidido a ir até o fim.
A porta da sala se abre.

Ela voltou...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O que me é conveniente

Eu estou definhando,
                                  perdendo peso,
            ganhando olheiras,
eu estou a beira, eu estou amaldiçoando esses novos tempos.
Me diz qual é o seu objetivo longe de mim. Sumir?
                                                                                  Até quando?
                                     A qual preço? Quem te quer bem não te quer como eu. Não fazem nem ideia dos reais motivos que existem para te desejar.
E eu quero tudo de novo, do inicio ao fim, uma segunda chance para sobrar algum amor por mim.

Essa noite uma depressão mais forte qualquer me levou para longe daqui, perto daí. Te espero agora naquele café rua abaixo, preciso te ver. Preciso que faça eu me arrepender de ter vindo sem doer. Preciso que traga no seu veneno a pior das drogas, ilusão que nunca passa. Uma certa paz que não se desfaz. Uma certa voz de má.
Deixei recados, disse que esperaria até o lugar fechar caso precisasse de tempo... para avaliar os riscos. Saiba que vim totalmente desarmado. Não que eu tenha deixado algo em casa. Simplesmente não consegui pensar em nada, não se preocupe. Só quero mesmo te ver. E quem sabe acertar algumas palavras.
E você? O que me dirá? Sinceridades ou aquelas atrocidades? Você também me quebrou em pedaços, e não acho que me deve alguma desculpa. Se a tua vontade é a de ser feliz. Com ou sem. Te digo que também. Então do que importa você se sentir livre e eu preso? Do que importa você estar magoada e eu arrependido? Se não existe amor, o ódio passa a ser um capricho.
Lembra como era bem mais gostoso quando eram os dois?
                                                                                    Nós dois...
Já se passam das onze e você não me deu imaginação para achar nada. Se não acharia que está agora em casa. Certa que não virá, mas vem...
                                                          Mesmo?
Você caminha rua abaixo incamuflável. Impossível de se esconder. Ou sou eu que estou destoando aqui? Você se senta me olhando como quem não encontrou quem esperava. Mostra os dentes. E eu mando que parem com o plano...
Você sorriu.